A pré-campanha à Presidência de Flávio Bolsonaro (PL) passou a enfrentar uma onda de críticas dentro do próprio campo bolsonarista. O movimento ganhou força após dois episódios recentes: a viagem do senador aos Estados Unidos para participar de uma audiência pública sobre o tarifaço e, posteriormente, a confirmação da taxa adicional sobre produtos brasileiros.
O que antes era tratado apenas nos bastidores começou a ser exposto publicamente por aliados antigos do bolsonarismo. Desde o início de julho, integrantes ligados ao grupo passaram a questionar a condução da pré-campanha. Fábio Wajngarten, ex-chefe da Secretaria de Comunicação Social do governo Jair Bolsonaro (PL), afirmou que a pré-candidatura enfrenta problemas de agenda, comunicação, organização e planejamento.
“A campanha de Flávio não existe: não tem agenda, comunicação, organização e planejamento. Não tem a mínima organicidade que as anteriores tiveram, gerando motivação espontânea”, disse em postagem feita no X. Depois, Wajngarten publicou uma mensagem direcionada ao presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, com sugestões de alterações na equipe responsável pela pré-campanha de Flávio: “Time que não performa tem que mexer.”
“Empodere nominalmente grandes lideranças católicas, evangélicas, do agro, da segurança pública, da área médica, da educação e do desenvolvimento do varejo, para reuniões semanais com updates diários”, sugeriu o ex-ministro.
Wajngarten ocupou o comando da Secretaria de Comunicação Social (Secom) e também foi secretário-executivo do Ministério das Comunicações durante o governo Bolsonaro. Após deixar o governo, atuou como assessor do PL até ser demitido em maio do ano passado, depois do vazamento de mensagens com críticas à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Críticas de aliados da direita
As críticas também partiram dos youtubers Paulo Figueiredo e Kim Paim, que classificaram a estratégia adotada pela campanha como um “desastre” e defenderam uma postura mais próxima do estilo de Jair Bolsonaro. Em vídeo publicado no começo de julho, Figueiredo, que recentemente atraiu reação negativa para a pré-campanha de Flávio ao afirmar que mulheres não sabem votar, disse que existe um “desastre de comunicação” e classificou a campanha como “insossa”, além de criticar a preocupação excessiva com a imprensa.
“Não adianta Flávio Bolsonaro jogar com as características de um candidato que tem 3% nas urnas. Flávio tem que jogar com as características do bolsonarismo”, afirmou. “Imagina se [Jair] Bolsonaro teria tido qualquer pudor em falar sobre o viés óbvio do voto feminino e do que isso representa. Que saudade daquele que falava que não queria ter filho ‘viado’, que saudade desse bolsonarismo.”
Na ocasião, Figueiredo também reclamou do que chamou de demora na divulgação de uma nota oficial após a participação de Flávio na audiência nos Estados Unidos. “Depois a gente perde e não sabe por que a militância é desengajada, por que toma de 7 a 1 na imprensa todos os dias”, disse.
Outro nome a fazer críticas foi Paim, que tem quase 1 milhão de inscritos no YouTube. Ele questionou a produção de conteúdo da pré-campanha e cobrou maior divulgação das ações do senador. “O que as pessoas possuem para divulgar o Flávio? Nada. Não tem material sendo gerado”, afirmou Paim.
Também alinhado à direita e opositor ao governo Lula, o pré-candidato do PSD à Presidência, Ronaldo Caiado, classificou como “inaceitável” a proposta de adiar a entrada em vigor das tarifas americanas sobre produtos brasileiros para depois das eleições, que foi sugerida por Flávio a Trump.
Briga entre Michelle e Flávio
Outro episódio que expôs um possível racha no campo bolsonarista foi o embate público entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro. No fim de junho, a ex-primeira-dama divulgou um vídeo em que afirmou ter sido maltratada pelo enteado durante divergências sobre a definição do quadro eleitoral do PL no Ceará. Em seguida, renunciou à presidência do PL Mulher, sem esclarecer se seguirá como pré-candidata ao Senado pelo Distrito Federal, possibilidade que até então era tratada como certa entre aliados do bolsonarismo.
Na semana passada, o presidente nacional do PL foi questionado sobre a carta escrita por Bolsonaro e lida por Flávio, interpretada por aliados como um recado para Michelle após o ex-presidente afirmar que era necessário deixar as desavenças de lado. Valdemar Costa Neto negou que a mensagem tivesse sido direcionada especificamente à ex-primeira-dama e afirmou que o conteúdo também fazia referência ao próprio Flávio. “É pro Flávio também, porque ele também é culpado”, disse o político em entrevista ao programa Estúdio i, da GloboNews.
Na avaliação do dirigente partidário, Flávio precisa buscar uma aproximação com a madrasta para evitar novos desgastes dentro do grupo. “Ele tem que ter uma boa relação, ele tem que procurar a Michele, tem que acertar a vida com ela, porque senão o Bolsonaro vai ficar preso mais 10 anos.”




