A política de Antônio Carlos atravessa uma mudança que seria difícil de imaginar há poucos anos. PP e MDB, adversários históricos no município, agora ensaiam uma união para as eleições de 2026, em um movimento que evidencia a perda de espaço das duas siglas e o crescimento do PL liderado pelo prefeito Onélio Richartz, o Nelinho, e pelo vice-prefeito Leonardo Hoffmann, o Léo.
A aproximação ganhou contornos públicos durante uma sessão da Câmara de Vereadores. Na tribuna, a vereadora Cleuzete da Costa, do MDB, defendeu o voto conjunto nos candidatos das duas legendas.
“Historicamente, o MDB vai se unir ao 11… o 15 vai se unir ao 11.”
Na sequência, a parlamentar foi ainda mais direta ao orientar os eleitores:
“Quem for MDB irá apertar o número 11 do Amin, e quem for 11 irá apertar, sim, o número 15 do Antídio.”
A manifestação propõe, na prática, uma espécie de voto casado entre Esperidião Amin, do PP, e Antídio Lunelli, do MDB. Mais do que uma estratégia para a disputa estadual, o discurso revela uma movimentação de forças dentro de Antônio Carlos.
Coerência política colocada em dúvida
A união chama atenção porque MDB e PP construíram grande parte de suas identidades locais por meio da oposição entre si. Durante décadas, os dois partidos disputaram a Prefeitura, dividiram famílias e eleitores e apresentaram seus respectivos projetos como alternativas incompatíveis.
Agora, os antigos adversários pedem votos reciprocamente sem que tenha sido apresentada, até o momento, uma convergência clara de programas, ideias ou propostas para o município.
A falta de coerência fica evidente: se PP e MDB eram tão diferentes quando disputavam o poder, o que justificaria a união agora? E, se possuem tantas afinidades a ponto de compartilhar votos e palanque, por que permaneceram separados durante tantos anos?
A resposta parece estar menos em uma repentina aproximação ideológica e mais no surgimento de um adversário comum. O avanço do PL modificou uma disputa que antes estava concentrada entre o 11 e o 15.
Nelinho e Léo romperam a antiga polarização
A ascensão do PL em Antônio Carlos passa diretamente pelas trajetórias de Nelinho e Léo. Nelinho pertencia ao MDB, mas migrou para o PL. Léo, por sua vez, deixou o PP, filiou-se ao mesmo partido e aceitou concorrer como vice de Nelinho.
A aliança entre duas lideranças vindas justamente dos grupos tradicionais criou uma alternativa à polarização municipal. Em 2024, os dois concorreram por uma chapa pura do PL e venceram uma das disputas mais equilibradas da história recente da cidade.
Nelinho foi eleito com 2.730 votos, equivalentes a 34,47% dos votos válidos. Delmo Koch, do PP, recebeu 2.633 votos, enquanto Seu Jucélio, do MDB, obteve 2.556. A diferença entre o primeiro e o terceiro colocado foi de apenas 174 votos.
| Candidato | Partido | Resultado |
|---|---|---|
| Nelinho | PL | 2.730 votos – 34,47% |
| Delmo Koch | PP | 2.633 votos – 33,25% |
| Seu Jucélio | MDB | 2.556 votos – 32,28% |
O resultado mostrou que, embora PP e MDB ainda conservassem bases eleitorais expressivas, o PL havia conquistado espaço suficiente para superar os dois grupos tradicionais. A vitória também consolidou Nelinho e Léo como as principais lideranças do novo campo político municipal.
Publicações do Biguá News posteriores à eleição registraram a atuação conjunta do prefeito e do vice, inclusive na definição da equipe que assumiria a administração municipal.
Eleições de 2026 serão um teste de forças
O próximo teste ocorrerá nas eleições de 2026. A expectativa do grupo governista é que Nelinho e Léo ampliem sua influência e entreguem uma votação expressiva aos candidatos que apoiarem, principalmente para os cargos de governador do Estado e para o Senado, fortalecendo a presença do PL no município.
Uma boa votação do PL em Antônio Carlos teria importância além da disputa estadual e nacional. O resultado poderia demonstrar que a vitória de 2024 não foi apenas consequência da divisão entre PP e MDB, mas o início de uma reorganização política mais duradoura.
Esse desempenho também serviria como preparação para 2028, quando Nelinho e Léo poderão buscar a reeleição. Quanto maior for a capacidade da dupla de transferir votos em 2026, maior deverá ser o peso político do governo municipal na formação de alianças para a eleição seguinte.
É justamente essa possibilidade que ajuda a explicar a aproximação entre PP e MDB. Separados, os dois partidos correm o risco de continuar dividindo o eleitorado tradicional e facilitar a consolidação do PL. Unidos, tentam reconstruir uma maioria capaz de conter o avanço do 22.
União nasce da necessidade eleitoral
O movimento não representa necessariamente uma aliança municipal formal para 2028. Ainda assim, o discurso feito na Câmara demonstra que as antigas barreiras partidárias estão sendo relativizadas diante do crescimento de Nelinho e Léo.
A contradição é difícil de ignorar. PP e MDB não superaram suas diferenças quando governavam ou disputavam diretamente a Prefeitura, mas agora encontram espaço para uma aproximação justamente quando ambos perderam o comando municipal.
A nova mensagem é simples: quem é 15 vota 11, e quem é 11 vota 15. Entretanto, essa orientação também pode gerar resistência entre eleitores que passaram décadas ouvindo das próprias lideranças que o partido rival representava o projeto político a ser derrotado.
A eleição de 2026 mostrará se as bases partidárias aceitarão essa mudança ou se a aproximação será interpretada como uma união circunstancial para preservar espaço político.
O fato é que a vitória de Nelinho e Léo em 2024 já provocou uma consequência significativa: rompeu a polarização entre PP e MDB e levou adversários históricos a procurar um caminho comum. Ironicamente, a chapa que prometia unir Antônio Carlos acabou unindo também aqueles que, durante décadas, não conseguiram caminhar juntos.
