Dez anos após a derrocada que resultou no impeachment de Dilma Rousseff, o Brasil ainda não realizou um mea-culpa institucional, uma omissão que, segundo o ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão, mantém o País vulnerável a novas crises democráticas e episódios semelhantes aos de 2016.
Impactos sociais e políticos do impeachment
Para o ex-titular da Pasta, o processo de destituição não representou apenas a queda de uma mandatária, mas sim o início de um projeto deliberado para desmantelar a rede de proteção social do Estado e enfraquecer políticas públicas essenciais como o Minha Casa, Minha Vida e a Farmácia Popular. O desmonte estatal gerou um ambiente de aversão ao pensamento progressista, abrindo caminho para a ascensão de Jair Bolsonaro e deixando um legado de forte instabilidade e enfraquecimento institucional.
O papel do Judiciário e da Lava Jato
Aragão também aponta a conivência do poder judiciário no processo, destacando que a criação da Operação Lava Jato em 2014 e a subsequente inabilitação do presidente Lula nas eleições de 2018 aprofundaram a crise. Com o passar dos anos, o Supremo Tribunal Federal acabou assumindo prerrogativas penais extraordinárias para suprir a inércia da Procuradoria-Geral da República, gerando um desarranjo institucional sem precedentes na história republicana brasileira.
A resistência e a fragilidade democrática
Relembrando os bastidores daquele 31 de agosto de 2016 — quando o Senado confirmou o impeachment por 61 votos a 20 —, o ex-ministro relata que as tentativas de diálogo com o mercado e com as forças políticas foram infrutíferas, uma vez que os interesses econômicos na Faria Lima já haviam precificado a queda do governo. Fatores como o desgaste com o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e o desgaste de um Ministério Público transformado em órgão puramente punitivo agravaram o cenário.
Apesar da virada institucional protagonizada pela anulação dos processos contra Lula e seu retorno ao poder em 2022, Aragão reforça que a estabilidade atual é frágil. Sem um exame profundo da sociedade sobre a crise moral e os erros cometidos contra a democracia nos últimos anos, a repetição de rupturas institucionais no futuro continua sendo uma ameaça real.
