A fé virou armadilha. O que era anunciado como “limpeza espiritual” terminou em uma sequência de denúncias graves registradas na Polícia Civil de Santa Catarina contra Olívio Francisco Willms, de 63 anos, preso durante a Operação “Santidade”, em Gaspar.
Os boletins de ocorrência revelam um padrão que se repete em diferentes relatos. Mulheres procuravam o investigado em busca de orientação espiritual. Ele se apresentava como líder religioso e afirmava que as vítimas estavam com a “vida amarrada”, que havia “trabalhos feitos contra elas” ou que precisavam “abrir caminhos”.
Segundo os registros policiais, ele convencia as mulheres de que a solução exigia rituais em cachoeiras, sítios e locais isolados. Em diversos depoimentos, as vítimas relatam que eram orientadas a retirar as roupas sob o argumento de que a “limpeza” só funcionaria dessa forma. Em seguida, o suspeito passava a tocá-las e cometer abusos, dizendo que aquilo fazia parte do “processo espiritual”.
“Ele dizia que precisava tocar, passar a mão, e até manter relações para que as coisas melhorassem. Que se eu contasse pra alguém, ia tirar tudo que eu tinha”.
Uma das vítimas afirmou em boletim que foi ao sítio do investigado por três vezes. Segundo ela, em todas as ocasiões manteve relação sexual com o homem porque ele dizia que era “necessário para que sua vida melhorasse”. Ela também relatou ameaças. Conforme o registro, ele dizia que, se ela contasse a alguém, “tiraria tudo que ela tinha” e “mandaria coisa ruim”.
Outro boletim descreve situação semelhante. A vítima relatou que o suspeito afirmava que ela tinha “erros espirituais” e precisava fazer “limpezas em cachoeira”. Em determinado momento, segundo o depoimento, ele disse que seria necessário que ela retirasse toda a roupa. A mulher afirma que foi tocada de forma indevida e que o investigado justificava os atos como parte do ritual.
Há ainda registros envolvendo importunação sexual. Em um dos casos, a comunicante informou à polícia que soube por familiares que o homem se aproveitava da condição de “pai de santo” para importunar mulheres e, em alguns episódios, cometer estupros. Ela procurou a delegacia após receber relatos de que outras vítimas também estavam denunciando.
Há ocorrências por estupro e importunação sexual, tanto em Gaspar quanto em Blumenau.
Outro depoimento traz relato de exposição pública e falas de cunho sexual feitas durante encontros religiosos. A vítima afirma que ele utilizava a religião para constranger, fazer insinuações e tocar pessoas sob justificativa espiritual. Segundo o registro, o suspeito falava sobre o corpo das vítimas e fazia comentários constrangedores diante de terceiros.
“Eu frequentava o terreiro desse pai de santo, e fui incitado e exposto varias vezes em frente ao público, por ser homem trans. Ele falava coisas do tipo: ‘vc tem mandioca? Tranca ruas te empresta?’”, relatou uma vítima.
“Ele falava que queria ver o que eu tinha por debaixo da roupa pra ver se eu era homem mesmo, falava que queria ver como eu tinha relação com minha mulher”, complementa a vítima trans.
“Olívio me dizia que precisava ‘deitar’ com ele para que as coisas melhorassem, mas que se contasse para alguém ele ia tirar tudo que eu tinha, ia mandar coisa ruim pra gente”, conta outra vítima.
Em um dos casos, a mãe de uma adolescente relatou que a filha, à época com 15 anos, teria sido orientada a ir sozinha para realizar “limpeza espiritual”. Conforme o boletim, o investigado insistia para que a jovem comparecesse desacompanhada. A família decidiu se afastar do local após desconfiar das intenções.
Os relatos apontam que os encontros ocorriam, em geral, sem testemunhas. Algumas vítimas afirmaram que não denunciaram antes por medo ou por acreditarem que “não teriam provas”. Somente após saberem que outras mulheres estavam registrando ocorrência é que decidiram procurar a delegacia.
Diante da repetição dos relatos e da semelhança nas dinâmicas descritas, a Delegacia de Gaspar instaurou novo inquérito em 2025, além de já haver investigação aberta desde 2024. Com o avanço das apurações e a informação de que o suspeito também é processado no Paraná, o delegado representou pela prisão preventiva para garantir a ordem pública.
A Justiça autorizou a medida. A Polícia Civil, com apoio da Polícia Militar, cumpriu o mandado de prisão e realizou busca domiciliar. O celular do investigado foi apreendido e deve passar por perícia para identificar possíveis novas vítimas ou elementos que reforcem as investigações.
Segundo o delegado responsável, o inquérito deve ser concluído nos próximos dias.
A Polícia Civil reforça que outras possíveis vítimas podem procurar a delegacia para registrar ocorrência. Denúncias anônimas também podem ser feitas pelo site oficial da instituição.




