O novo governo da Polônia, que tomou posse após as eleições de 2023, iniciou uma investigação detalhada sobre a gestão de empresas estatais e as ações de executivos da administração anterior. Esse exame revelou um escândalo ligado à Orlen Trading Switzerland (OTS), referente à compra de petróleo da Venezuela, conforme reportado na terça-feira (15) pelo jornal Financial Times. A negociação envolveu intermediários ocultos e transações em criptomoedas, resultando em um prejuízo estimado de cerca de US$ 440 milhões, com escassas quantidades de petróleo chegando às refinarias da Orlen.
Detalhes do escândalo
A falha de governança corporativa, uma das mais significativas na história de um grupo europeu de energia, começou com uma conversa em um iate em Abu Dhabi no final de 2023, durante uma festa do GP da Fórmula 1. O executivo Samer Awad, que liderava o braço de trading suíço da Orlen, teria solicitado ao trader Kam Ho “Alex” Tse, fundador da Hannon International, que conseguisse petróleo venezuelano. O que se seguiu foi uma complexa disputa envolvendo grandes quantias de dinheiro e criptomoedas, mas resultou em poucos barris de petróleo.
Awad visava aproveitar a redução temporária das sanções dos EUA à indústria petrolífera da Venezuela, planejando adquirir cerca de seis milhões de barris de petróleo, totalizando aproximadamente US$ 345 milhões. Em outubro de 2023, Washington flexibilizou as sanções por seis meses, na expectativa de que Nicolás Maduro permitisse eleições democráticas.
Pagamentos em criptomoedas
Desde 2019, a estatal PDVSA passou a exigir pagamentos antecipados em USDT, uma criptomoeda atrelada ao dólar, para as transações de petróleo. Esse método permitiu à Venezuela contornar as sanções. A investigação do Financial Times, que se baseou em documentos internos, dados de navegação e entrevistas, revelou um dos maiores escândalos corporativos da Polônia, em meio a uma corrida por petróleo bruto e criptomoedas.
O contrato assinado pela OTS no final de 2023 previa a compra de 6 milhões de barris da mistura pesada Merey 16, por US$ 345 milhões. A Orlen esperava um lucro de US$ 25 a US$ 30 milhões, mas a empresa não pôde comentar sobre o contrato devido a “obrigações de confidencialidade”. O pagamento inicial de US$ 230 milhões foi transferido para a Hannon, que, por sua vez, procurou auxílio de Vitonicola Mariano, que se apresentava como agente da PDVSA, mas que tinha um histórico questionável.
Atrasos e dificuldades
Os petroleiros fretados pela Orlen chegaram à Venezuela em dezembro de 2023, mas ficaram vazios enquanto a empresa acumulava taxas portuárias. Tse, preocupado com os atrasos, levou pendrives com grandes quantidades de USDT para Caracas, e contratou segurança pela possibilidade de sequestro. Em janeiro de 2024, Tse se encontrou com outro intermediário, José Castillo, que recebeu mais de US$ 100 milhões em USDT, mas o petróleo nunca foi entregue.
Com a troca de poder na Polônia e a nova administração, falhas na governança em torno do contrato com a Hannon foram reveladas. Em março de 2024, a Orlen conseguiu carregar apenas 500 mil barris de óleo, metade do esperado. A empresa reconheceu a crise contábil e jurídica e rescindiu o contrato, enquanto o governo polonês estimou perdas de pelo menos 1,6 bilhão de slotyz (aproximadamente US$ 424 milhões), incluindo custos de navegação e jurídicos. A disputa pela recuperação dos US$ 230 milhões adiantados à Hannon continua em arbitragem, mas a Hannon afirma não ter os fundos disponíveis.
